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A Eucaristia, centro da vida do sacerdote
Redação - 2011/08/09

O sacerdote é embaixador de Cristo e administrador dos mistérios de Deus. Dois Sacramentos lhe são confiados de modo muito especial: o da Eucaristia e o da Reconciliação.

Dom Benedito Beni dos Santos
Bispo Diocesano de Lorena

Hoje a Igreja celebra a memória litúrgica do Imaculado Coração de Maria. É uma celebração significativa, pois trata-se do coração de Mãe. Mãe do Filho de Deus feito homem. Mãe da humanidade redimida pelo seu Filho na Cruz. Mãe da Igreja, como proclamou o Papa Paulo VI, no final da segunda sessão do Concílio Vaticano II. Mãe dos sacerdotes.

Eucaristia.jpg
Com as mesmas palavras com as quais Cristo instituiu
a Eucaristia, Ele instituiu também o sacerdócio ministerial

A propósito, o Beato João Paulo II recordou que aquele discípulo que estava ao pé da Cruz e acolheu Nossa Senhora como mãe era um Apóstolo de Jesus, portanto um sacerdote. Se Nossa Senhora é Mãe de todos os cristãos, de todos os discípulos de Jesus, Ela o é de modo especial dos sacerdotes.

A razão do celibato sacerdotal

Prezados ordenandos, eu creio que as palavras do profeta Isaías, que ouvimos na primeira leitura desta Missa, iluminam a vossa ordenação sacerdotal. Diz o profeta: "Exulto de alegria no Senhor, minha alma se rejubila em Deus; Ele me vestiu com as vestes de salvação, envolveu-me com o manto da justiça e adornou-me como um noivo com sua coroa" (Is 61, 10). Estas palavras expressam a gratuidade e a beleza do amor de Deus para com Israel. Mas elas podem exprimir também a gratuidade e a beleza de seu amor para conosco.

De fato, a vocação sacerdotal só se explica a partir da gratuidade do amor de Deus, da beleza desse amor. Ele confia em nós e nos dá uma missão. "Exulto de alegria no Senhor". O dia da ordenação presbiteral é um dia de muita alegria. Júbilo não só interior, mas também exterior, que eu vejo estampado em vossas faces. Alegria que envolve toda a liturgia que estamos celebrando: os ritos, as orações, os cantos.

"Adornou-me como um noivo com a sua coroa". À semelhança do Bispo, que pela ordenação se torna esposo da Igreja, também o presbítero, pela ordenação se torna esposo da Igreja. Por isso deve dedicar à Igreja toda a sua vida, todo o seu amor. E aqui se encontra a razão do celibato sacerdotal. Não é um celibato qualquer. Não é uma simples ascese. Trata-se de um celibato evangélico. Através do celibato, o estilo de vida do sacerdote identifica-se com o estilo de vida de Cristo.

Embaixador de Cristo e administrador dos mistérios de Deus

Da segunda leitura desta Missa, quero sublinhar duas afirmações do Apóstolo Paulo. Primeira: "Somos embaixadores de Cristo" (II Cor 5, 20). O sacerdote é embaixador de Cristo, seu representante, seu vigário. O embaixador não pronuncia a sua mensagem, mas sim a daquele que o enviou. Por isso mesmo, o sacerdote não deve anunciar as suas opiniões pessoais, mas a palavra de Deus, a palavra de Cristo.

Mas o embaixador de Cristo é também administrador dos mistérios de Deus, ou seja, dos bens salvíficos que são os Sacramentos. E dois Sacramentos são confiados de modo muito especial aos cuidados do sacerdote: o da Eucaristia e o da Reconciliação. O sacerdócio ministerial, que reveste o Bispo e o presbítero, foi instituído na Última Ceia com a Eucaristia e em vista da Eucaristia. Com as mesmas palavras com as quais Cristo instituiu a Eucaristia, Ele instituiu também o sacerdócio ministerial: "Fazei isto em minha memória".

A fonte da espiritualidade do sacerdote

Por isso mesmo a Eucaristia deve ocupar o centro da vida do sacerdote. Ele não pode deixar de celebrá-la cada dia. E deve também ser a fonte da sua espiritualidade. O Beato João Paulo II, em sua última Carta aos Sacerdotes por ocasião da Quinta-Feira Santa, assinada por ele num leito de hospital, afirma que a fonte da espiritualidade do sacerdote são as palavras pronunciadas por Jesus na Última Ceia, as quais o sacerdote repete em cada celebração da Eucaristia.

Recordemos essas palavras tão belas e misteriosas: "Tomou o pão em suas mãos e deu graças". Componente, pois, da espiritualidade do sacerdote, deve ser uma ação de graças contínua, cada dia, a cada momento, pelo dom da vocação. "Isto é o meu corpo por vós entregue. Este é o cálice do meu sangue por vós derramado". O sacerdote precisa ser uma hóstia, consumir a sua vida cotidianamente pelo bem da Igreja e dos irmãos.

O sacerdote abre as portas da misericórdia divina aos pecadores

O outro Sacramento confiado de modo especial ao cuidado do sacerdote é o da Reconciliação. Como ministro deste Sacramento, ele abre as portas da misericórdia divina aos pecadores.

ordenaçao presbiteral.jpg
Dois momentos da Missa de ordenação
presbiteral, presidida por Dom Beni
(foto acima)

Mas não podemos nos esquecer, queridos ordenandos: o sacerdote não é só ministro deste Sacramento, é também sujeito dele. E por isso deve, com frequência, aproximar-se do Sacramento da Confissão. Esta aproximação frequente do Sacramento da Reconciliação faz com que o sacerdote seja honesto consigo mesmo; faz com que ele não se instale nos seus erros, mas cada dia se esforce para superar todos os seus erros, todas as suas limitações; faz com que ele seja misericordioso para com os irmãos.

O sinal de amor do sacerdote por Cristo é apascentar o rebanho

Eu creio que a pergunta de Cristo registrada no Evangelho que acabamos de ouvir, serve de conclusão para esta nossa reflexão: "Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?" (Lc 2, 49). É interessante observar que esta é a primeira palavra de Jesus registrada no Evangelho. E a primeira vez que Ele fala no Evangelho é para referir-se ao seu Pai. Que coisa maravilhosa!

"Estar na casa do Pai" significa cuidar das coisas de Deus. O sacerdote é ordenado, não para cuidar das coisas do mundo, não para ser político, ser economista, ser cantor e dar shows. Ele é ordenado para estar na casa do Pai, cuidar das coisas de Deus, anunciar a sua Palavra, celebrar a Eucaristia, ouvir as confissões dos fiéis, cuidar do rebanho que lhe é confiado. Aliás, o rebanho confiado a cada sacerdote não lhe pertence, pertence a Cristo que é o único Pastor. Por isso disse Ele a Pedro: "Apascenta as minhas ovelhas" (Jo 21, 17).

E o sinal do amor de Pedro por Cristo foi justamente apascentar o rebanho. O sinal principal do amor de cada sacerdote por Cristo é apascentar o rebanho que lhe é confiado. Prezados ordenandos, o Coração Imaculado de Maria, cuja memória litúrgica estamos celebrando, é uma fonte de graças para toda a Igreja. Por isso ela a celebra cada ano. Que o Imaculado Coração de Maria, pois, vos dê um coração sacerdotal semelhante ao coração de seu Filho: coração humano, coração puro, coração misericordioso, coração santo. Amém.

(Homilia na Missa de ordenação presbiteral celebrada na igreja do Seminário dos Arautos em Caieiras, Grande São Paulo, 2/7/2011)

(Revista Arautos doEvangelho, Agosto/2011, n. 116, p. 38-39)

 

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